Obesidade – uma doença inflamatória

A obesidade – uma doença inflamatória que tem várias causas implicadas em seu desenvolvimento

*desde fatores genéticos até desequilíbrios nutricionais; mais recentemente descobriu-se que toxinas ambientais são também “gatilhos” hormonais.

 

É preciso dizer, entretanto, que os fatores genéticos representam aí apenas 30%. Nos restantes 70%, serão os fatores ambientais os responsáveis por esse desenvolvimento, e é aqui que entra nosso livre-arbítrio.
Eu costumo dizer que enquanto não sabemos Deus perdoa! Portanto, a partir de agora, depois dessas informações, você é quem vai decidir sobre sua longevidade.

[Tweet “A cada garfada, você é quem vai decidir se coloca saúde ou doença em seu organismo”]. Uma alimentação adequada, rica em nutrientes, faz que nosso organismo funcione bem, pense bem, aprenda melhor, tenha mais concentração.

Nós trocamos 50 milhões de células todos os dias. Cada célula de nosso corpo precisa de pelo menos 45 nutrientes conhecidos para poder desempenhar corretamente sua função. Apesar de os nutrientes presentes nos alimentos serem a matéria-prima para a formação, a manutenção e a reestruturação celular, a simples ingestão deles não nos garante que estarão disponíveis para ser utilizados. Para que isso aconteça, é fundamental que nosso organismo tenha condições bioquímicas e fisiológicas adequadas para disponibilizar e absorver os nutrientes contidos nos alimentos.

Depois de corretamente “quebrados”, isto é, digeridos, esses nutrientes precisarão ser absorvidos e transportados até a célula. Ao chegar ao seu destino, esse nutriente ainda terá que atravessar a membrana celular e ter condições de executar sua função dentro da célula.

Além disso, produzimos diversas substâncias que podemos chamar de “lixo metabólico” e que precisam ser eliminadas de nosso organismo, assim como toxinas que tenham sido absorvidas do meio ambiente. Para que tudo isso ocorra com eficiência, precisamos de um bom funcionamento de todos os nossos processos metabólicos e hormonais.

Se por acaso uma dessas etapas não acontecer corretamente, de nada vai adiantar eu ingerir uma alimentação adequada. O organismo vai apresentar carências nutricionais que o levarão a desenvolver deficiências funcionais.
O que mais encontro em meu consultório são pessoas obesas e, por mais incrível que possa parecer, desnutridas!
A restauração nutricional do paciente é fundamental para o sucesso de qualquer abordagem, e não é de admirar que a obesidade venha aumentando a ponto de ser chamada de “globesidade”.

A OMS calcula que desde 1980 a obesidade tenha mais que triplicado em todo o mundo, inclusive nos países em desenvolvimento.
Justamente em países que se industrializam rápido, a incidência da obesidade está crescendo agudamente, o que faz aumentar a epidemia das doenças a ela associadas, como diabetes, dislipidemias , doenças hepáticas, aterosclerose e alguns tipos de câncer.
Para você ter uma ideia da gravidade, em 2005 a estimativa era de que 1,6 bilhão de adultos (idade superior a 15 anos) estavam com sobrepeso e que 400 milhões eram obesos.

Para 2015 a OMS projetou que aproximadamente 2,3 bilhões de adultos estarão com sobrepeso e mais de 700 milhões com obesidade.
Esses dados são alarmantes, pois com a obesidade aumenta igualmente a epidemia de doenças a ela associadas, como diabetes e hipertensão (que permanecem muitas vezes silenciosas, assintomáticas), potencializando, entre outras, o desenvolvimento das doenças cardiovasculares, as que mais matam hoje no mundo inteiro.
Até os anos 1990 nosso tecido adiposo era considerado apenas um grande reservatório de gordura, mas com a descoberta de um hormônio por ele produzido chamado leptina — que sinaliza para nosso sistema nervoso central qual é a quantidade de energia que o corpo tem estocada — esse tecido passou a ser considerado também um órgão endócrino.

Há aproximadamente dez anos a obesidade foi reconhecida pelos pesquisadores como uma condição com baixo grau de inflamação crônica, o que fez que a visão do tecido adiposo mudasse radicalmente. Desde então, o aumento de gordura corporal tem sido associado ao aumento de diversas substâncias inflamatórias.

Você deve estar se perguntando: como exatamente ocorre essa inflamação?

Nosso tecido gorduroso — que de agora em diante chamarei de tecido adiposo — é formado por células que recebem o nome de adipócitos. Essas células, além de estocar gorduras, regulam vários aspectos de nosso metabolismo, produzindo uma série de hormônios e moléculas inflamatórias.
A inflamação induzida pela obesidade é também chamada de “metainflamação”, por seu potencial envolvimento em algumas doenças, como resistência à insulina, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, esteatose hepática, além de diversos tipos de câncer.

Para simplificar, pode-se dizer que a obesidade ocorre pelo resultado de um aumento do tecido adiposo que pode acontecer de duas formas: com o aumento do número de células (hiperplasia), ou com o aumento do tamanho das células já existentes (hipertrofia). As células de gordura podem aumentar em até mil vezes só por hipertrofia, independentemente da época de vida, desde que haja espaço disponível nos adipócitos.

Ao contrário do que se pensava, a hiperplasia (aumento de células novas) pode ocorrer em qualquer época da vida, e não apenas na infância e na adolescência. Quando a quantidade de gordura nas células existentes alcança o limite de sua capacidade, uma nova célula cresce para, assim, poder acumular mais gordura. Por isso, é mais difícil ter sucesso na manutenção do peso em pessoas que tem uma obesidade hipercelular do que na obesidade hipertrófica.

Como já disse, nosso tecido adiposo é um órgão secretório ativo que produz inúmeras substâncias para sinalização em nosso metabolismo. Entre elas estão substâncias ativadoras de nosso sistema imunológico, e sua relação com a inflamação é compreensível, visto que várias dessas substâncias são pró-inflamatórias. Além disso, quando temos esse processo inflamatório na obesidade, ocorre também um aumento do estresse oxidativo. Eu costumo explicar: o ferro enferruja, nós oxidamos.

Esse estresse oxidativo resulta do acúmulo de radicais livres, que são substâncias que danificam as células. Acredita-se que o dano causado pelo estresse oxidativo contribua para o envelhecimento e para o surgimento de muitas doenças. Na obesidade, a produção de radicais livres aumenta nos adipócitos.

Temos também células em nosso organismo chamadas de macrófagos, que são células de defesa que atuam na resposta inflamatória. Eles são os grandes “faxineiros” (fagocitam, isto é, “englobam e digerem” o que precisa ser eliminado) e “fofoqueiros” de nosso organismo, sinalizando para outras células do sistema de defesa o que deve ser combatido.

Esses macrófagos acabam por se infiltrar no tecido adiposo em resposta à produção de substâncias pró-inflamatórias do próprio adipócito. As substâncias produzidas tanto pelo tecido adiposo como pelos macrófagos, que também secretam substâncias sinalizadoras, caem na corrente sanguínea, o que torna essa inflamação sistêmica.

Mas é possível também que a presença de inflamação esteja aumentada por outras causas, por exemplo alergias alimentares, principalmente no caso das alergias consideradas “tardias”, que podem se manifestar, de forma subclínica, até três a quatro dias depois de o alimento ter sido consumido.

Essas alergias geram processos inflamatórios que contribuem para uma resistência à insulina, pois a presença dessas substâncias inibe a ação da insulina por meio de alteração da sinalização de seu receptor. Além disso, essas substâncias pró-inflamatórias exacerbam a produção de radicais livres, aumentam os níveis de cortisol (lembra do estrago do excesso de cortisol quando falava sobre estresse com o senhor José Maria?) e aumentam as moléculas de adesão plaquetária, contribuindo para o processo de aterogênese (aquele que entope as artérias e veias).

Mas essa produção de substâncias pró-inflamatórios também sofre influência das gorduras da dieta, como a gordura saturada, a gordura trans e o aumento no consumo de ácidos graxos poli-insaturados da série ômega 6 em desequilíbrio com os da série ômega 3, tudo isso gerando uma lipotoxicidade, uma das causas também da resistência à insulina.

Tanto o ômega 3 como o ômega 6 são ácidos graxos essenciais, isto é, precisamos ingeri-los, pois nosso corpo não tem a capacidade de fabricá-los, mas o grande problema é que atualmente estamos consumindo muito mais ômega 6 do que ômega 3, conferindo à nossa dieta ocidental o aspecto de dieta pró-inflamatória. O ideal seria a seguinte relação: uma porção de ômega 3 para cada duas, no máximo quatro porções de ômega 6. Só que atualmente estamos consumindo uma porção de ômega 3 para 20, até 30 porções de ômega 6. O ácido graxo ômega 3 é encontrado principalmente nas gorduras dos peixes de águas frias e profundas; já o ácido graxo ômega 6 tem suas principais fontes nos óleos vegetais (girassol, milho, soja, algodão).

A integridade da mucosa intestinal também tem um papel fundamental em todo esse processo, por isso temos um capítulo dedicado ao intestino, nosso segundo cérebro. Quando não estamos com este órgão saudável, ocorre o que se chama de disbiose, um desequilíbrio entre as bactérias que habitam nosso intestino, permitindo a entrada de toxinas, xenobióticos (substâncias estranhas que entram em nosso organismo, inclusive pela alimentação) e alérgenos alimentares.

Em consequência de uma alteração na permeabilidade intestinal ocorre a translocação dessas substâncias, que passam do intestino para a corrente sanguínea, desencadeando novos processos inflamatórios, que contribuem, como já vimos, para a resistência à insulina e o consequente aumento de adiposidade e resistência na perda da gordura corporal.

Existe também um aumento dos níveis de estrógeno (hormônio feminino) e uma diminuição dos níveis de testosterona (hormônio masculino). Em consequência de desequilíbrios nutricionais de alguns minerais, ocorre o aumento na atividade de uma enzima presente no tecido adiposo chamada P450 aromatase.

Essa enzima converte, dentro do tecido adiposo, hormônios como a testosterona em estradiol (hormônio feminino), contribuindo ainda mais para o acúmulo de gordura visceral (aquela que fica na região abdominal), a responsável pela diminuição da sensibilidade da insulina nas células musculares. Outra situação que estimula a produção de novas células de gordura é a que se caracteriza por resistência à insulina e ingestão de dieta muito rica em ácidos graxos.

Para não complicar mais as coisas e finalizar essa “tragédia”, esses pré-adipócitos, quando ativados, podem se diferenciar também em outro tipo de célula, que não é uma célula de gordura! Você deve estar pensando que isso é uma coisa boa, certo? Ledo engano! Esses pré-adipócitos ativados podem, sim, se transformar naqueles macrófagos de que falamos há pouco. E você lembra que esses macrófagos também produzem substâncias sinalizadoras de inflamação dentro do tecido adiposo?

Pois é, parece um filme de terror, mas é isso mesmo que acontece quando engordamos. Saímos de férias, comemos até não poder mais e dizemos: — Depois, quando eu chegar em casa, faço uma dieta!

Agora que você conhece um pouco mais sobre todo esse processo inflamatório gerado pelo excesso de gordura, vai se expor a esse risco?

Obesidade uma doença inflamatória. Continue lendo sobre este assunto no meu livro Tudo posso mas nem tudo me convém.

Este artigo foi escrito por Gisela Savioli

Categorias

Deixe seu comentário